Marcos d'Ajuda
15 julho 2017
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A IMAGEM REFLETIDA NO ESPELHO

Acordei muito cedo esta manhã. Deitado, olhando um feixe de luz que iluminava parte de um pequeno quadro na parede, animei ao lembrar que era dia de mais um divertido treino pelas avenidas de minha cidade. Alegrei. Subitamente, pulei da cama. Estava frio. Senti na pele. Adorei. Aproveitando os raios de sol que invadiam a escuridão parcial de meu quarto, na penumbra, com a mente preguiçosa, relutante, aleatoriamente peguei o calção e a camiseta, pois os tênis, os mais vibrantes, coloridos, já haviam sido separados na noite anterior. Em frente a um grande espelho, apoiado na bancada de mármore branco de meu banheiro, já vestido para praticar a minha filosofia de vida saudável que tanto me faz bem, olhar fixo, fiquei estático a me observar. Paralisei. Era como se o meu espírito tivesse criado o momento perfeito para que o eu filho, pai e marido estivesse diante do corredor de rua que também sou. Arrepiei. Foram alguns segundos de contemplação, sem narcisismo, momento no qual pudemos compreender, frente a frente, a importância vital que um tem para o outro. Recordamos que no passado o meu ser frágil precisou suportar os desejos da mente do novato corredor de rua. Agora, portanto, nada mais justo que o experiente corredor de rua aceite as incapacidades do corpo. Em agradecimento, sorri. Olhando fixamente minha imagem refletida no espelho, como se eu estivesse sintonizado em outra frequência, a sensação que eu tinha era a de que, através da alma, o eu corredor de rua via a minha imagem desnuda que por sua vez enxergava o corredor de rua. Em silêncio, houve uma breve troca de pensamentos de agradecimentos recíprocos por todas as conquistas de muitas alegrias, saúde, bem-estar e disposição obtidas ao longo de uma década dedicada a prática da corrida de rua como um estilo para agregar qualidade à vida. Sem sofrimento, sem dores, aprendendo mais e mais a cada novo dia de treino, conquistei o equilíbrio de mim mesmo. Sem fantasias, sem utopias, aceitando quem eu sou de fato, absorvo os ensinamentos que tornam possível viver em harmonia com o universo ao meu redor. Observando meus cabelos grisalhos e as rugas que cortam o meu rosto, características marcantes do tempo que passou sem controle, novamente sorri, quase gargalhei, ao constatar que não foi necessário me sacrificar, me tornar refém de um massacrante sistema de conceitos e regras dos outros para me tornar um vencedor sem nada precisar vencer além dos obstáculos da estrada da vida, na maioria das vezes colocados no caminho pelas próprias atitudes erradas. Felizmente, ao fazer as escolhas que considero acertivas para o futuro do meu todo, experiente, após muitos erros, não permiti que os desejos do corredor de rua, sempre tão vaidoso, cheio de orgulho, por vezes arrogante, fossem superiores as necessidades do indivíduo comum, humilde, com suas fragilidades e deficiências. Quero continuar irradiando alegria, praticando corrida de rua para contribuir com ensinamentos para o filho, pai e marido que habitam dentro de mim e que, por sua vez, possam fortalecer a minha pequena porção corredor de rua com as experiências adquiridas na vida. Fechei os olhos e… levemente sorri. Com o espírito exultante, suspirei e, cantarolando, admirando o lindo amanhecer com suas fragrâncias características, saí para meditar a mente e relaxar o corpo praticando a minha corrida de rua embalado pelo som melodioso dos pássaros empoleirados nos galhos das árvores pelos milhares e milhares de metros do trajeto por onde, em liberdade, o espírito me conduziu. Que o equilíbrio conquistado com independência, determinação e simplicidade, através de minhas despretensiosas passadas, curtas, lentas, por vezes pueril, pelas ruas, parques e avenidas, possam ser cada vez mais determinantes para contaminar de forma saudável a vida das pessoas próximas a mim, que verdadeiramente me amam, e que, por opção, as quais eu respeito, não praticam corrida de rua.


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